A
turma do besteirol
Com imitações hilárias, piadas de
péssimo gosto e críticas aos famosos,
os integrantes do Pânico na TV estão
dando o que falar na cidade. Aos
domingos, o programa atinge no
Ibope picos de audiência de até
13 pontos, marca respeitável para
uma produção quase amadora
| 1.
Japa, como Mestre Fioda: um dos redatores
2. Vesgo: ex-ouvinte que
inferniza as celebridades
3. Zé Fofinho: imitações
de Faustão e Gugu
4. Carioca: no estilo malandrão
conquistador
5. Emílio: criador e comandante
do Pânico
6. Ceará: impagável como
Clodovil e Silvio Santos
7. Bola: o mal-humorado
e machista do grupo
8. Sabrina: no papel da
bonitona-burra
9. Mendigo: de office-boy
a humorista |
Você provavelmente já deve ter ouvido falar no
Repórter Vesgo, na Mulher Samambaia, no Táxi do Gluglu e nas sandálias
da humildade. Ou visto um sujeito com uma dentadura esdrúxula imitando
os apresentadores Clodovil e Silvio Santos. Caso não saiba do que se
trata, corre o risco de ficar sem assunto nas rodinhas às segundas-feiras.
Com seu humor escrachado e cruel, o programa Pânico na TV, exibido
durante uma hora e meia nas tardes de domingo na Rede TV!, caiu na boca
do povo. Os humoristas arrancam gargalhadas ao fazer imitações hilárias,
soltar piadas de péssimo gosto e principalmente constranger famosos.
A franqueza com que tratam celebridades e aspirantes ao estrelato é
de ruborizar o telespectador.
Rodrigo Scarpa, o tal Repórter Vesgo, já pediu
a Paulo Maluf a senha de uma suposta conta na Suíça, que o ex-prefeito
nega ter, para comprar um terno novo. Numa outra ocasião, quando encontrou
Marília Gabriela, sugeriu à jornalista que mandasse um beijo para o
filho. Ela perguntou para qual deles e ouviu na lata: "Para o Reynaldo
Gianecchini!" A turma não foi menos perversa ao desafiar a apresentadora
Luciana Gimenez a montar um quebra-cabeça infantil. "Levo as brincadeiras
numa boa", diz Luciana, invariavelmente questionada pela trupe sobre
quanto é 7 vezes 8. "Se você se incomodar, aí é que eles pegam no pé
mesmo."
Foi exatamente o que aconteceu com o costureiro-apresentador
Clodovil Hernandez, que se recusa a calçar as sandálias da humildade,
espécie de troféu dedicado às celebridades que se acham, nas palavras
deles, a última bolacha do pacote. Há um mês, Vesgo e Wellington Muniz
(ou Ceará, o da dentadura) andam na cola do apresentador. A perseguição
e as trocas de farpas Clodovil ameaçou pedir demissão em pleno ar
estão rendendo boa audiência (veja
quadro). Detalhe: os dois programas são da mesma emissora.
Pânico na TV tinha tudo para ser um mico.
Seus protagonistas, ao todo nove pessoas, mal sabiam se posicionar diante
de uma câmera. Imagine que a mais familiarizada com o mundo televisivo
era Sabrina Sato, que passou três meses exibindo diariamente suas vigorosas
curvas no Big Brother Brasil, da Rede Globo. Com pífios 1 200
reais de orçamento por episódio e um único cinegrafista para filmar
cenas externas, a produção era (e continua a ser) bastante tosca. No
primeiro dia em que a atração foi ao ar, há um ano e dois meses, apenas
1 pontinho sem graça de audiência foi registrado pelo ibope. Com todas
aquelas precariedades, de lá para cá os índices cresceram consideravelmente.
No último domingo (21), o programa atingiu média de 6 pontos, com pico
de 13. É uma marca e tanto para a emissora, o horário em que é exibido
(das 18h30 às 20 horas) e a produção quase amadora. Mas está longe de
ser uma ameaça aos veteranos Domingão do Faustão, da Globo, e
Domingo Legal, do SBT.
Mesmo com dez anos de sucesso na rádio Jovem Pan
FM, a performance do besteirol do Pânico na televisão era até
então uma incógnita. As piadas saem da cabeça da própria trupe, numa
reunião de pauta realizada às terças. Boa parte do que se vê, no entanto,
são comentários (machistas e homofóbicos) improvisados. Uma única pessoa
redige os textos, com a ajuda de Marcos Aguena, que interpreta o alienígena
Mestre Fioda. Bem diferente, por exemplo, do Casseta & Planeta,
Urgente!, que conta com uma superestrutura e pelo menos cinco redatores.
"De vez em quando eles acertam", diz o humorista Reinaldo Figueiredo,
que interpreta, entre outros, o Devagar Franco e o Zé Gallo na atração
global. "Mas prefiro o grupo no rádio. Na televisão, é um humor trash
demais para o meu gosto."
Ceará, que faz shows cômicos desde a adolescência,
é o único, digamos, humorista profissional. "Somos um bando de malucos
que apresenta molecagens", afirma Emílio Surita, 43 anos, 21 de rádio,
criador e líder do programa. Surita foi quem teve a idéia de atazanar
celebridades em festas. "Os famosos que entrevistamos no rádio não vão
à televisão porque têm compromissos com Faustão e Gugu." Neste ano de
estréia, apenas dois nomes de peso compareceram ao estúdio da Rede TV!:
o cantor Junior Lima e a banda Kid Abelha.
Cada um dos nove integrantes incorpora um tipinho
diferente. Marcos Chiesa, o Bola, é o irritadinho. Márvio Lúcio, o Carioca,
banca o malandro garanhão. "Nós somos daquele jeito mesmo, não interpretamos",
admite Sabrina, que encarna a bonitona-burra. Vinícius Vieira, o Zé
Fofinho, protagoniza o quadro Dia de Tristeza. Numa sátira ao apresentador
Netinho de Paula, que leva meninas pobres a lojas e restaurantes, eles
fazem o inverso com pessoas ricas. O playboy Chiquinho Scarpa encarou
o convite. Passeou no Largo Treze de Maio, comeu churrasquinho grego,
viajou em um ônibus lotado vestido de casaca e cortou o cabelo em um
salão que cobra 5 reais. "Achei divertido porque não conhecia o Largo
Treze, nunca tinha ido a um barbeiro, já que meu cabeleireiro vem em
casa às quintas-feiras, e não sabia o que era andar de ônibus", diz
Scarpa.
Antes quase anônimos, eles estranham a fama. "As
pessoas chegam para falar comigo como se me conhecessem, dando tapinhas
nas costas", conta Ceará, que na última semana foi reconhecido pelo
jornaleiro e pelo funcionário do estacionamento (do primeiro, ganhou
uma revista; do segundo, a isenção do pagamento da conta). Atualmente,
cada um fatura, em média, 20.000 reais por mês. Carlos Alberto da Silva,
o Mendigo, ex-interno da Febem e office-boy da rádio, circula de Audi
A3 e namora Sabrina, que, em dezembro, recheia a capa de Playboy
pela segunda vez. A mesma edição da revista mostra a Mulher Samambaia
(que não faz nada além de segurar um vaso da planta e, claro, exibir
o corpo) sem seu biquíni em forma de folhas.
Rodrigo Scarpa, um ex-ouvinte insistente que entrou
na Jovem Pan como estagiário de promoção, afirma que até dois anos atrás
ganhava salário de 150 reais. Hoje, Vesgo mora sozinho num flat próprio,
em Moema. No site de relacionamentos Orkut, ele é o mais popular dos
nove. Das seis comunidades em sua homenagem, a mais numerosa conta com
30.000 membros (três vezes mais que a principal comunidade formada por
fãs do Pânico).
O Pânico na TV foi uma aposta do empresário
Antonio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, dono da Jovem Pan.
"Fomos recusados por diversas emissoras", diz ele. Aos poucos, o prestígio
começa a vir. A verba da produção dobrou de míseros 1.200 reais para
ainda ridículos 2.500 reais. Agora, há dois cinegrafistas para reportagens.
Nenhuma outra atração da Rede TV! recebe tantos e-mails e cartas. São
17.000 por semana. Pânico na TV foi eleito o programa revelação
de 2003 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Para faturar
mais dinheiro, Tutinha estuda licenciar as sandálias da humildade para
uma empresa de calçados. E prolongar o tempo do programa na TV. Para
alívio das celebridades, é uma tentação que Emílio Surita promete evitar.
Vale a pena ver de novo
"Maluf, me passa
a senha da sua conta na Suíça para eu comprar um terno
novo?" Repórter
Vesgo para Paulo Maluf, durante
a campanha para a prefeitura, em setembro |
"Serra, você foi
eleito o careca do ano!" O
novo prefeito ganhou
o troféu da festa do Video Music Brasil, da
MTV, em outubro |
" Marília,
manda um beijo para o seu filho...
Qual deles?
O Reynaldo Gianecchini!" Diálogo
entre o Repórter Vesgo e Marília Gabriela, no
jantar do Ação Criança, em setembro
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"Mariana, você
não deu certo como apresentadora, atriz e cantora. O que
você é agora?" Repórter
Vesgo para Mariana Kupfer, em março
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Smack! Smaaaaack!
Smack! No aniversário
de Luciana Gimenez, em outubro de 2003, Roberta Miranda
tascou um beijão de treze segundos no Repórter Vesgo
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"Luana, por favor,
calce as sandálias da humildade..." Na
entrega do Prêmio Austregésilo de Athayde, em setembro
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| A polêmica
que dá audiência Começou como uma
brincadeira. Agora, um mês depois, virou uma espécie de guerra
de comadres. Vítima do quadro Sandálias da Humildade, o apresentador
Clodovil Hernandez questionou a masculinidade e o talento de
Emílio Surita no A Casa É Sua, também da Rede TV!. A
briga garantiu boa audiência aos dois programas, mas nada parecia
ser combinado. Na última quinta-feira, porém, o jornalista Ricardo
Feltrin, autor da coluna Ooops!, na Folha Online, noticiou um
acordo feito no último dia 10 entre Francisco Cortez, empresário
de Clodovil, e Mônica Pimentel, diretora artística da Rede TV!.
Na versão dela, não passou de um encontro informal pelos corredores
da emissora. Clodovil topou calçar as sandálias. A abordagem
seria ao vivo, porque o apresentador fazia questão de desabafar
suas mágoas. Eis que, nesse meio tempo, Clodovil foi perseguido
de carro e helicóptero pela turma do Pânico. Acabou por
desistir do trato. Do outro lado, os humoristas garantem: só
sossegam quando o apresentador descer do salto alto.
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