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Borda

Texto, pra ler... ou não ;]

06 Jul 2008

O texto a seguir é pura ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência...

Sozinha em Vila Isabel

Por Amanda R.

Só. Mais um dia. Só mais um dia no bairro de Vila Isabel. Caminho todas as manhãs entre os meninos e meninas que brincam de bola em frente ao colégio estadual.

O carnaval já passou e, mesmo assim, eles continuam a batucar. Malditos vizinhos! Acho que terei de aumentar o tempo da caminhada.

Toda essa correspondência. Mamãe me manda um cartão. Meu aniversário é só semana que vem. Deve estar me provocando, por eu não freqüentar as reuniões familiares. Ela dizia que eu acabaria só... Contas, publicidade, um panfleto do Disque-Solidão, onde eles querem chegar? Depois eu vejo, é hora de caminhar. Rotina sempre me fez bem.

Há dias que não recebo uma ligação. Minto. Ontem a operadora me ligou para falar de um novo plano de celular pré-pago. Era uma moça simpática. Normalmente eu não gosto de pessoas simpáticas. Sou uma fracassada, que meus alunos não escutem.

Essas crianças devem me achar dissimulada. Vai ver que nunca me notaram. O que será que estão cochichando? Muitos deles estudam na escola que leciono. Engraçado vê-los discutindo. Não vou me meter, devem estar brigando pela posse de bola.

No subúrbio, as praças estão cada vez mais depredadas. O cheiro não é bom. Na verdade me conforta. Estranho não ver mais aquela velhinha que alimentava os pombos todas as manhãs. Já faz algumas semanas. Será que ela está morta? Não me parecia muito lúcida, realmente. Minha avó morreu há alguns meses, esqueci de ir ao velório. Os velhos morrem, não se pode fazer muita coisa.

No banco de areia avisto Marina, minha aluna preferida, não quero que me veja. Não sei como devo agir fora da escola. É tarde. Melhor voltar para casa.

Além de Marina, Seu Zé, meu porteiro, é a pessoa que eu mais gosto de conversar. Mais correspondência? Eles poderiam economizar papel. Vejamos, contas, promoções, cartão de crédito, revistas. Só agora me dei conta que não venho pegando os jornais. Preciso que me avisem das coisas. Seu Zé ficou ausente por uns dias. Hoje ele está muito ocupado agora, não pode conversar.

Para mim é muito duro admitir que preciso de pessoas. Hoje é um desses dias, mas não cativei muita gente durante a minha vida a ponto de contar com elas. Bobagem. Vamos ver se um desses informativos serve de alguma coisa... “Disque-Solidão, boa noite?”.

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