Na noite da última segunda-feira
(04/02), o cartunista Angeli lançou seu mais recente
livro: Os Skrotinhos. A Cura pelo fel. A noite de autógrafos
aconteceu no bar Ritz, do bairro do Itaim ( São Paulo),
em um clima super descontraído. Tudo para recepcionar
a chegada do livro com a dupla de personagens mais irreverente
dos quadrinhos.
Em parceria com Kaiser Summer Draft,
os Skrotinhos ficaram famosos com a série de comerciais
que fizeram. Difícil esquecer as travessuras que
esses dois aprontam ... Os personagens de Angeli não
páram por aí e quem é mais velho, deve
se lembrar perfeitamente de Rê Borbosa, Bob Cuspe
e outros, também "filhos" de Angeli, premiado
com o dom de fazer humor.
Há trinta anos no mercado,
Angeli tornou-se um dos cartunistas mais famosos do país.
Faz tiras sobre política, sobre o cotidiano que nos
cerca e tudo sem perder o humor. E pensa que ele pára
por aí? Os Skrotinhos é apenas o quarto lançamento
de outros tantos que ainda virão.
Neste ambiente descontraído,
Angeli recepcionou muito bem a equipe da Pan. Falou sobre
carreira, público, personagens a até Internet.
Confira:
Como surgiu a parceria com
a Kaiser Summer Draft?
Bom, eles me convidaram para que meus personagens estrelassem
uma campanha. Eu nunca quis trabalhar com publicidade porque
não é a minha. Agora, foi a primeira proposta
que eu tive onde a campanha se encaixa com meus personagens.
Ao contrário, todas as propostas que tinha até
então era para encaixar meus personagens na campanha,
e isso eu não queria nunca. E aí foi a primeira
proposta digna e foi uma maravilha !
Os Skrotinhos foram feitos
para esse apelo comercial?
Não eram, mas Os Skrotinhos são personagens
que têm uma personalidade, eles são amorais,
ofendem a mãe. Então, com esse enfoque, eles
poderiam virar e fazer qualquer coisa. Diferente de outros
personagens, como o Bob Cuspe, que tem uma postura muito
radical. Eu não gostaria de vender ele.
O livro foi direcionado para
qual público: o jovem que conhece você agora
ou os mais velhos que acompanharam sua carreira?
Os dois. Para a molecada que não acompanhou o meu
trabalho na revista "Chiclete com Banana", nos
anos 80, e para as pessoas que acompanharam e agora têm
a oportunidade de guardar isso em cores, bem impresso. É
uma coleção, são 19 livros, estamos
ainda no quarto.
Então tem mais livros
vindo pela frente?
Tem bastante ainda, vou envelhecer fazendo os livros. São
três lançamentos por ano.
Você diferencia bem seu
público na hora de elaborar os cartoons?
Não, não penso nada. Só penso em fazer
um personagem, ou uma tira, ou uma piada que me satisfaça.
A partir do momento que me satisfaz, acho que já
tem qualidade, já passou pelo controle de qualidade.
Mas, não penso em público porque a partir
do momento que pensar, aí estarei fazendo publicidade,
e não é a minha. Meu trabalho é autoral
e faço questão de mantê-lo assim.
Qual o personagem que você
tem mais carinho?
É cíclico isso. Às vezes gosto muito
de um e depois descubro coisas em outro personagem que tenho.
Por exemplo, Os Skrotinhos eu tenho a maior paixão
por eles, mas eles me cansaram um pouco, porque junto com
o livro fiz a campanha da Kaiser e trabalhei demais com
eles. Agora quero pegar outro para "Cristo".
E a Rê Bordosa, tem algum
plano de ressuscitá-la?
Não, não, só lancei o livro. Não
tenho a menor intenção de mexer com ela, a
menor intenção.
E por que você matou
o próprio personagem?
Porque meus personagens duram a época deles. Não
faço personagens definitivos, igual o Scooby, que
fica o resto da vida. Não, os meus morrem no momento
em que a época deles acaba. Um exemplo disso é
o Bob Cuspe, que não faço mais, porque o punk
já não é o que era, então, fui
parando.
E o que a internet influencia
seu trabalho?
Por enquanto não mudou nada. Trabalho para um provedor
e a única coisa é que tive que fazer é
ser mais econômico no traço e na cor para não
pesar no desenho e ele poder "atachar" rápido.
E os programas de computador
onde se desenha direto na tela?
Eu continuo desenhando à mão. Passo o desenho
para o computador, boto cor no computador e envio meu trabalho
por lá. Agora, continuo no pincel, no nanquim.
Quais são as influências
dos jovens no seu trabalho?
Não seriam somente os jovens, mas pessoas me influenciam.
Sou atento aos movimentos comportamentais e jovens sempre
fazem alterações no ritmo das coisas, seja
através da música, ou das roupas. Mas não
é uma regra. O que influencia meu trabalho é
minha visão de mundo, a maneira como vejo o mundo.
Essa seria sua fonte de inspiração?
Sim, passo a realidade através do humor. Vejo a vida
através do humor.
E Os Skrotinhos seriam baseados
em alguém?
Mais ou menos, não exatamente com pessoas definidas.
É um comportamento de várias pessoas, lógico
que tem duas ou três figuras que acompanhei, vendo
o trânsito delas na noite. E isso que deu um "start"
para fazer o personagem. Mas, na hora da composição
do personagem eu fui buscar coisas diversas.
Você tem algum ritual
para compor?
Eu preciso de concentração, dedicação
e crença que aquilo é um trabalho importante.
Acontece de ter alguma idéia
andando na rua?
Não, só desenvolvo na prancheta. Nunca fui
o tipo que anota as coisinhas antes de dormir ou acordar
no meio da noite. Admiro as pessoas que têm idéias
assim, andam com bloquinho para anotar tudo. Nunca fiz isso,
as idéias eu tenho sentado na prancheta. Agora, é
lógico que tudo o que vejo, fica na minha cabeça.
Então na hora que sento, puxo essas coisas para o
papel.
Seu trabalho na política
é diferenciado?
Diferencio. A política eu vou colher coisas na política
oficial, no comportamento dos políticos, vou atrás
de coisas que não são minhas. Agora, os personagens
são coisas minhas, são amigos, são
pessoas que observo nos lugares que vou, que, de certa maneira,
são lugares que tem mais a minha cara. São
coisas mais íntimas. A política não
é assim, espero o movimento político para
produzir.
E as expectativas daqui para
frente?
Não tenho nada definido, só estou precisando
de um pouco mais de sossego. Preciso trabalhar menos, ganhar
mais e a minha meta é reduzir o volume de trabalho,
mas não penso em parar, quero envelhecer fazendo
isso.